7 A força da palavra e a fragilidade da escuta: discursos de dominação sobre a Palestina
Ashjan Sadique Adi; Elizabeth Hazin; et Keithe Souza Matos Abdel Hamid
Fundamentos teóricos da Análise Crítica do Discurso
Diante de disputas narrativas e apagamentos sistemáticos, torna-se imprescindível compreender como os discursos se constroem e se legitimam historicamente, produzindo verdades, subjetividades e relações de poder. Para tanto, é necessário recorrer a uma fundamentação teórica que permita analisar a linguagem como prática social. As contribuições de Michel Foucault (2000a, 2000b), Norman Fairclough (2001), Lilie Chouliaraki e Norman Fairclough (1999) oferecem instrumentos cruciais para compreender os discursos sobre a Palestina como construtores não apenas de violências, mas também de resistências.
A concepção foucaultiana de discurso constitui uma das bases mais relevantes para os estudos críticos da linguagem. Para Michel Foucault (2000a, 12), o discurso não é apenas um conjunto de signos, mas uma prática social que envolve “violências que se exercem sobre as coisas” e que organiza modos de saber e de poder. Ao propor categorias como formação discursiva, ordem do discurso e regimes de verdade, o autor evidencia que todo enunciado é produzido em condições históricas específicas, as quais delimitam o que pode ser dito, pensado e legitimado ou não.
Nessa perspectiva, Foucault (2000a) compreende o discurso como um campo estratégico em que se travam lutas pela definição de verdades e pela legitimação dos sujeitos que podem falar. O poder, para ele, não é uma instância centralizada, mas uma rede capilar que atravessa os discursos e produz efeitos de verdade. Assim, as narrativas hegemônicas – como as que sustentam determinadas representações sobre a Palestina – não apenas descrevem a realidade, mas a constituem, instaurando regimes de visibilidade sionista e de silenciamento palestino. A análise foucaultiana permite, portanto, compreender como certos saberes se impõem como universais, enquanto outros são marginalizados, e como o discurso atua na produção e manutenção de concepções sobre todas as dimensões da vida; sociedade, sexualidade, política, cultura, religião, educação, etc.
Nessa mesma direção crítica, Spivak (2010 [1988]), em seu ensaio Pode o subalterno falar?, questiona a possibilidade de o sujeito subalterno expressar-se dentro das estruturas discursivas do poder ocidental, uma vez que sua voz é constantemente mediada, apropriada ou traduzida pelos discursos hegemônicos. O silenciamento, segundo a autora, não decorre apenas da ausência de fala, mas do modo como os sistemas de poder e conhecimento definem quem é audível e quem permanece invisível – questão que se reflete nas formas como as vozes palestinas são frequentemente representadas, deslocadas ou apagadas no espaço global.
Essa compreensão do discurso como prática atravessada por relações de poder-saber influencia diretamente a formulação da Análise Crítica do Discurso (ACD) desenvolvida por Norman Fairclough (2001). Ao operacionalizar o aporte foucaultiano em um método de investigação, o linguista propõe o modelo tridimensional – análise textual, prática discursiva e prática social – que permite compreender como a linguagem participa da constituição de identidades, relações sociais e sistemas de conhecimento. Como afirma o autor: “A análise crítica do discurso tem de considerar não apenas o texto, mas também as condições de sua produção, distribuição e consumo, bem como as práticas sociais que o engendram” (Fairclough 1995, 73).
Fairclough aprofunda sua abordagem em colaboração com Lilie Chouliaraki na obra Discourse in Late Modernity: Rethinking Critical Discourse Analysis (1999). Os autores defendem que, na modernidade tardia, o discurso não apenas reflete a realidade, mas também a molda, contribuindo para a construção de subjetividades e para a naturalização de práticas sociais. Nessa perspectiva, é necessário “explicar como práticas discursivas específicas são moldadas por relações de poder e, ao mesmo tempo, como contribuem para a manutenção ou transformação dessas relações” (Chouliaraki, Fairclough 1999, 28).
O enquadramento dos autores ressalta ainda o papel da mídia e da comunicação global na constituição da vida social, mostrando como os discursos midiáticos criam regimes de visibilidade e invisibilidade que moldam a relação dos sujeitos com a alteridade (Chouliaraki, Fairclough 1999, 41). Assim, pode-se afirmar que Foucault (2000a) fornece o fundamento filosófico para compreender o discurso como prática atravessada por poder-saber; Fairclough sistematiza essa concepção em um método crítico voltado à análise da mudança social; Chouliaraki e Fairclough (1999) acrescentam uma dimensão ética e comunicacional, mostrando como o discurso midiático global institui subjetividades e orienta relações de responsabilidade.
A Desumanização e a Resistência do Povo Palestino: uma Análise Crítica do Discurso
A aplicação desses conceitos teóricos ao caso da Palestina evidencia a dimensão política e social dos discursos. Os discursos sobre a Palestina configuram-se como práticas sociais atravessadas por relações de poder-saber, determinando quais narrativas são legitimadas e quais são silenciadas. À medida que se faz a desumanização do povo palestino, não há espaço para suas vozes, e as narrativas opressoras do sionismo disseminam uma única história.
Analisar o discurso sob o arcabouço da ACD permite compreendê-lo “como uma prática não apenas de representação do mundo, mas de significação do mundo, constituindo e construindo o mundo em significado” (Fairclough 2001, 92). Essa abordagem destaca a linguagem como prática social, pressupondo uma relação dialética entre linguagem e sociedade. Como observa Fairclough (2001, 91):
O discurso contribui para a constituição de todas as dimensões da estrutura social que, direta ou indiretamente, o moldam e o restringem: suas próprias normas e convenções, como também relações, identidades e instituições que lhe são subjacentes. O discurso é uma prática, não apenas de representação do mundo, mas de significação do mundo, constituindo e construindo o mundo em significado.
Nesse sentido, entende-se que “o discurso é moldado pela estrutura social, mas é também constitutivo da estrutura social” (Resende, Ramalho 2011, 26-27), numa relação dialética discurso-sociedade, reforçando que os processos discursivos não apenas refletem, mas também produzem relações de poder, identidades e práticas sociais.
Edward Said (1978), em Orientalismo, demonstra como os discursos ocidentais constroem a ideia de Palestina e de Oriente como espaços de atraso, irracionalidade e barbárie, “circunstâncias especiais que requerem civilização, ordem e democracia, utilizando a força apenas como último recurso” (Said 2007 [1978], 52). Essa construção ideológica legitima práticas de dominação política e cultural, ao mesmo tempo em que silencia vozes palestinas e orientais e reforça representações hegemônicas.
Contudo, os discursos não são apenas instrumentos de dominação; eles também constituem espaços de resistência. Nas produções culturais, políticas e midiáticas palestinas, emergem contra-discursos que desafiam as narrativas coloniais e hegemônicas, reivindicam visibilidade, memória e autodeterminação. Assim, a Palestina torna-se não apenas objeto de discursos violentos, mas também sujeito de discursos de resistência, reconfigurando sentidos de território, identidade e pertencimento.
Diante desse cenário, fica evidente que os discursos sobre a Palestina não se limitam a representar uma realidade, mas ativamente a produzem, configurando relações de poder que naturalizam a violência, o apagamento e o silenciamento de vozes subalternizadas. O arcabouço da Análise Crítica do Discurso evidencia como tais práticas discursivas não são neutras: elas participam da legitimação de políticas de dominação e da construção de identidades estigmatizadas, enquanto marginalizam perspectivas de resistência, de autodeterminação e de emancipação sócio-política.
Nesse sentido, denunciar a desumanização do povo palestino e reconhecer seus contra-discursos não é apenas um exercício acadêmico, mas uma ação ética e política que expõe a desigualdade estrutural e as estratégias de controle ideológico. A análise crítica do discurso, articulando os aportes de Foucault (2000a, 2000b), Fairclough (2001), Chouliaraki e Fairclough (1999) e as contribuições de Said (1978), mostra que compreender o poder da linguagem é também compreender a responsabilidade de intervir, desestabilizando narrativas hegemônicas e abrindo espaço para a visibilidade, a justiça e a solidariedade internacional.
A narrativa israelense: política, ideológica, mitológica e não científica
A narrativa sionista tem sido eficaz na formação da percepção internacional sobre o contexto palestino, particularmente no Ocidente e Sul Global. Ao apresentar Israel como uma entidade vítima e vulnerável sob ataque de supostos grupos terroristas, essa versão elude o projeto colonial de ocupação da Palestina, sua limpeza étnica e destruição social, cultural, histórica. Esse esforço para reescrever a história tem se apoiado em diversas estratégias, incluindo a censura de arquivos, a promoção de relatos heroicos da « independência » israelense, o investimento de milhões de dólares em campanhas midiáticas e a marginalização das vozes palestinas nos círculos acadêmicos e meios de comunicação (Segev 1999; Pappé 2006).
É importante frisar que, segundo Finkelstein (2025), a narrativa historiográfica israelense tradicional – representada por autores como Shapira (2012) ou Porath (1977) – carece de caráter científico, funcionando mais como um discurso político e ideológico nacional com propósitos legitimadores do que como uma disciplina acadêmica; trata-se de uma ficção. Em contraste, os « Novos Historiadores » israelenses, como Benny Morris (2004), Ilan Pappé (2006) e Avi Shlaim (2001) e acadêmicos palestinos como Fayez Abdullah Sayegh (1965), Walid Khalidi (2006), e o pós-colonial Edward Said (2007 [1978]), desenvolveram um sistema historiográfico científico baseado em arquivos e metodologia crítica. Conforme Finkelstein (2025, 3):
Deve-se enfatizar que o que se denomina « historiografia oficial israelense » funciona mais como uma narrativa política do que como historiografia científica. Seu papel tem sido sustentar o mito fundador e reproduzir uma narrativa de legitimação, em vez de analisar fatos históricos com critérios metodológicos rigorosos. Em contraste, historiadores críticos – tanto israelenses quanto palestinos e pós-coloniais – introduziram um sistema científico de análise historiográfica que revela as contradições e omissões da versão oficial (Morris, 2004; Khalidi, 2006, apud Finkelstein, 2025).
Ademais, segundo Costa (2025), autores palestinos, juntamente com autores do Sul Global, sofrem boicote por aqueles que detêm os meios de produção e difusão de conhecimento. Ou seja, quem detém estes meios contribui, de modo decisivo, para o processo de hegemonização de ideias e leituras particulares da realidade de maneira a moldá-la aos seus próprios interesses, sendo que uma das formas mais eficazes de o fazer é silenciar autores que transportam ideias e visões alternativas às dominantes, apresentadas e interpretadas como a realidade em si mesma.
Portanto, ocultar a realidade Palestina e seus fatos por trás, especificamente, do mito de estado vítima da insurgência nativa e que se “protege” através de suas Forças de defesa (IDF), não apenas distorce a história, mas perpetua uma injustiça epistêmica contra o povo palestino, cujas tragédias, aspirações e reivindicações foram sistematicamente apagadas da narrativa hegemônica.
Desse modo, a narrativa convencional sobre a Questão Palestina é permeada por distorções e deturpações conceituais intencionais a favor do opressor, do dominador e do vencedor histórico, mas não eterno; como diz o provérbio africano de autoria desconhecida: “Até que os leões possam escrever suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça”. E tais deformações a partir de uma história única, unilateral, monolítica e totalizante contribui para diversas violências simbólicas, no âmbito internacional, contra o povo palestino, como discriminações, preconceitos e o disseminado estereótipo de “terroristas”.
No contexto israelense, essas distorções, difundidas ao longo de todo o processo educativo desde a infância, modelam representações do palestino como inimigo, invasor e ameaça existencial. Essa formação simbólica – que articula memória do Holocausto, narrativas de vulnerabilidade e imagens desumanizadoras do outro – tende a reduzir a empatia e a legitimar respostas militares e de segurança; em consequência, muitos jovens deixam o ensino médio subjetivados por essa ideologia e se alistam nas IDFs com percepções que facilitam a desumanização do palestino e a normalização da violência contra ele. Estudos sobre os conteúdos escolares e a pedagogia israelense demonstram como esse padrão curricular e iconográfico contribui para a construção ideológica de jovens conscientes da necessidade de matar palestinos, seus agressores em potencial, conforme atesta Peled-Elhanan (2019). Ou seja, a palestinofobia, o racismo contra palestinos é ensinado nas escolas de Israel e a educação é voltada para o Exército.
Abordaremos brevemente três exemplos destas distorções: uma delas trata-se da palavra conflito e a reiterada expressão: “o conflito Palestina/Israel”; a Questão Palestina não se trata de um conflito, termo equivocadamente muito utilizado e que contribui para a adulteração do que efetivamente ocorre histórica e diariamente na Palestina. A palavra conflito remete à ideia de forças proporcionais lutando em campo, o que não se dá na relação Israel/Palestina.
O uso recorrente do termo conflito para designar a situação colonial da Palestina constitui um ato discursivo de apagamento e de silenciamento, que desconsidera as dimensões históricas, opressoras e genocidas da ocupação israelense. Ao pressupor uma relação simétrica entre “dois lados”, o termo conflito neutraliza a assimetria de poder existente e desloca a responsabilidade política de práticas sistemáticas de expulsão, massacre e desumanização. À luz da Análise Crítica do Discurso, tal escolha lexical atua como um dispositivo ideológico: produz efeitos de sentido que transformam um processo de colonização e extermínio em uma mera divergência bilateral, esvaziando a dimensão perversa e histórica da violência sionista de um século.
O Holocausto nazista-alemão não foi um conflito, o Apartheid sul-africano não foi um conflito, o sionismo israelense na Palestina, também não se trata de um conflito; o aparato de mitos e mentiras sionistas ousa tamanha deturpação epistêmica contra a realidade de um povo, assim como outras tantas atrocidades simbólicas e materiais. Trata-se de colonialismo, ocupação, apartheid, limpeza étnica e de genocídio, usemos as palavras corretas e evitemos mais violências, inclusive as simbólicas.
E por falar em genocídio palestino, segue o segundo exemplo, o atual genocídio é repetidamente aludido como guerra Israel vs Palestina, ou mais especificamente, Israel vs Hamas, restringindo todo um território e povo colonizados em busca de sua autodeterminação, em um partido político e sua ala armada de resistência. Ora, a guerra é uma situação de confronto aberto e armado, envolvendo estados e suas forças armadas; a Palestina foi impedida de se constituir enquanto estado, desde sua partilha em 1948, e não possui nenhum tipo de força armada, seja ela, Marinha, Exército ou Aeronáutica, mas pessoas e grupos de resistência que se rebelam, diante de um contexto em que a diplomacia historicamente falhou e favoreceu o estado ocupante.
Outro exemplo é a expressão Guerra de Independência, versão israelense para a Nakba – Catástrofe palestina – presente em livros didáticos de História analisados na pesquisa de doutorado de uma das autoras. Ou seja, a limpeza étnica (crime contra a humanidade) não é tratada como tal, mas invisibilizada a partir da temática sionista oficial, não associando a tragédia palestina ao colonialismo com suas multidimensionais negações e violações de direitos. Novamente, impera a ótica do colonizador, entre inúmeros outros exemplos que poderíamos mencionar que atestam esse apagamento discursivo; e se apagam palavras, apagam-se coisas, apagam-se pessoas, povos e suas histórias.
A serviço do prejuízo da consciência humana e sem o interesse na fonte direta palestina, a mídia hegemônica divulga o que chama de guerra, reforçando um discurso que normaliza o genocídio, e banaliza a natureza absurda e aberração geopolítica, que é o sionismo. “A mídia tradicional latino-americana foge da palavra genocídio, seguindo a linha das agências dos EUA e Europa, que obedecem aos lobbies sionistas” (Alzoubi 2025, 4).
Sendo assim, é fundamental que todos chamem os fatos pelos nomes do que verdadeiramente são, estabelecendo uma consciência crítica sobre a realidade, e não sendo reféns da aparência dos fenômenos, da empiria imediata e das circunstâncias efêmeras, apresentadas intensamente pela mídia e outras fontes de informação, que buscam moldar nossas percepções do mundo a malefício de nós mesmos.
A vitória injusta da fala sobre a escuta
Como em todos os contextos de dominação que se travam no mundo, a dominação de Israel sobre a Palestina também se trava na palavra, no discurso, naqueles termos que de algum modo vão moldando a imagem de ambos os lados na percepção do público. Palavras como terrorismo, ocupação, defesa, resistência devem ser enunciadas cuidadosamente, pois é justo sua nomeação que fixa na mente coletiva a ideia de uma « realidade”: a linguagem emocional veiculada pelas redes sociais pode transformar-se em solidariedade ou em linchamento simbólico, o que na maioria das vezes torna o diálogo impossível. “Quando se compra um jornal ocidental” – escreve Genet –, “sua leitura confirma que os donos dos meios de comunicação se apoderaram da palavra e determinam seus significados: para eles, os combatentes palestinos não são homens dispostos a entregar suas vidas pela liberdade, mas sim, ‘terroristas’, ‘delinquentes’, ‘criminosos’ e ‘monstros” (1987, 22). Em seu primeiro discurso diante da Assembleia da ONU, em 1974, Arafat chama a atenção para a inversão de papeis operada pela propaganda sionista (Genet 1987, 22):
Os que nos qualificam de terroristas desejam impedir que a opinião pública mundial descubra a verdade sobre a nossa luta e conheça a justiça de nossa causa. Tratam de dissimular o terrorismo e a tirania de seus atos e ocultar nossa posição de legítima defesa. A diferença entre o revolucionário e o terrorista reside na razão pela qual lutam. Quem defende uma causa justa e luta pela liberdade de sua terra e expulsão dos colonizadores não pode ser qualificado de terrorista.
Talvez a crise mais profunda de nosso tempo não se deva exatamente ao excesso de palavras, mas à ausência de escuta. No verbete Palavra redigido para a Enciclopédia Einaudi, lê-se: “O dom da palavra não é apenas a capacidade, a aptidão para falar, é também a autorização que temos para falar, o lugar reservado pelos outros às nossas palavras: querer ou não querer ouvir equivale a conceder ou proibir a palavra” (Barthes, Flahaut 1987, 121). A epígrafe acima, extraída de um dos textos praticamente desconhecidos do dramaturgo francês Jean Genet sobre a revolução palestina, expressa perfeitamente a necessidade de dominar a palavra para que se alcance a liberdade e tudo o que ela implica para o povo palestino. Quem domina a palavra, domina a narrativa que forjará a imaginação coletiva. Cada escolha linguística instaura um mundo, uma realidade específica. Quando alguém afirma que a Palestina é uma terra sem povo para um povo sem terra[1], ou quando outro alguém sentencia: “Palestina? Nunca houve tal lugar », tais palavras adquirem para todos um estatuto de verdade, “verdade” que a propaganda sionista conseguiu impor ao mundo.
Recentemente, em razão de todas as manifestações do planeta em nome de Gaza e da Palestina, os sionistas começaram a se preocupar com a imagem esgarçada que agora ostentam, o que os levou a redobrar os esforços, sobretudo nas redes sociais. E assim, centenas de vídeos e de postagens aí escancaram sua visível intenção manipuladora da opinião pública. Vejamos, como exemplo, uma delas, feita no Instagram, no dia 17 de junho 2025, aqui no Brasil, por um Brasileiro:
Oi, eu sou Jairo, sou judeu e sou sionista. Sim, sionista. Pronto, falei, pode respirar, que eu sei que essa palavra dá gatilho em muita gente. Mas sabe por quê? Porque vocês não fazem a menor ideia do que isso significa. Sionismo é um movimento que defende o direito do povo judeu de voltar para sua terra ancestral, Israel. Sem conspiração, sem racismo, sem apartheid, sem genocídio. Quer entender de verdade? Então escuta aí alguns fatos que nunca te ensinaram e que talvez você também nunca quis saber. Israel não é uma colônia, é o berço histórico, religioso e linguístico do povo judeu. Dois mil anos de exílio e mesmo assim a gente voltou. Milagre ou teimosia histórica? Talvez os dois. Se você é contra o direito do povo judeu de existir como povo independente, que nome você dá pra isso? Israel não foi criado na violência, foi reconhecido pela ONU e no dia da independência fomos atacados, sim, atacados, por cinco exércitos árabes. Mas a culpa é de Israel, claro. […]
Em discurso que se pretende esclarecedor (e pacífico), destoa a palavra sionista, palavra que aqui aparece ressignificada pela força de quem fala, não pela verdade que carrega. Jairo começa sua fala defendendo a palavra, antes até de demonstrar seu significado, como se ela funcionasse para ele como uma armadura. Ao declarar “sou sionista”, não reivindica na realidade uma posição política, reivindica o direito de falar sem ser questionado, como se a linguagem fosse um escudo moral. Todo o seu discurso se estrutura a partir da vitimização e da exclusão, evocando a imagem histórica do judeu perseguido, o que para Jairo parece constituir uma prova de inocência até o fim dos tempos, uma situação capaz – graças à dor do passado – de expurgar qualquer ato que no presente venha a ser cometido.
Ao afirmar ser Israel “o berço ancestral do povo judeu »[2], ele inverte semanticamente a situação, de vez que o “retorno”[3] aqui aludido não é aquele de dois mil anos antes, o da convivência, mas o que visa substituir, expulsar, aniquilar, exilar – de tudo – o outro. O apelo que Jairo faz à legalidade quer acrescentar a toda violência e violação colonial israelense a ideia de legitimidade, como se o reconhecimento das Nações Unidas deletasse toda a violência de que está impregnada a fundação deste Estado. E aí surge a mais perigosa das acusações, pura manipulação linguística: antissionismo como sendo antissemitismo. No entanto, trata-se de dois conceitos diversos: a crítica à violência de um Estado e o ódio a um grupo humano específico, mas em seu discurso tornam-se equivalentes. Ora, isso não é diálogo. Retomando o que já foi dito antes, é a vitória da fala sobre a escuta. E se temos a impressão de que a história volta a se repetir, é que ela de fato o faz, mas não somente como a tragédia a que todos assistimos nos últimos dois anos, senão também como narrativa, como discurso.
Considerações finais
A análise desenvolvida ao longo deste artigo evidencia que os discursos sobre a Palestina se configuram como luta simbólica em que se articulam práticas de dominação, apagamento e resistência. Sob a ótica da Análise Crítica do Discurso, a linguagem deixa de ser mero instrumento de comunicação para se revelar como um campo de poder-saber, no qual se produzem verdades, subjetividades e relações sociais. Assim, o discurso participa ativamente da constituição do mundo social, sendo, simultaneamente, produto e produtor das estruturas sociais.
Nesse contexto, os discursos sionistas analisados são potentes mecanismos de construção hegemônica, legitimando a ocupação e a violência a partir da manipulação semântica e da naturalização da desigualdade. Expressões como conflito, defesa e guerra operam como categorias discursivas que disfarçam as assimetrias históricas entre colonizador e colonizado, enquanto a rotulação dos palestinos como terroristas sustenta a narrativa civilizatória do Estado de Israel. Tal discurso, difundido e reforçado pelos meios de comunicação hegemônicos, institui regimes de visibilidade seletivos que humanizam o opressor e desumanizam o oprimido, perpetuando uma injustiça histórica e também epistêmica.
Por outro lado, emergem contra-discursos, discursos de resistência que desestabilizam as narrativas hegemônicas e afirmam a legitimidade da luta palestina por memória, território e autodeterminação. Através da literatura, da mídia alternativa e das vozes da diáspora, a palavra Palestina rompe o silêncio imposto e reinscreve-se como ato de insurgência. Tal gesto linguístico é também ético-político: resistir discursivamente significa existir diante do apagamento, reivindicar o direito de narrar e o direito de ser ouvido. A força da palavra, nesse sentido, confronta a fragilidade da escuta – uma escuta global ainda moldada por filtros coloniais e por interesses geopolíticos que selecionam quais dores merecem atenção e comoção.
Como argumenta Spivak (1988), o subalterno pode falar, mas sua voz é frequentemente mediada, traduzida e reinterpretada pelas estruturas de poder que definem quem é audível e quem permanece invisível. Reconhecer as vozes palestinas, portanto, implica também problematizar os modos de escuta e os regimes de representação que continuam a silenciar o subalterno. Assim, compreender os discursos sobre a Palestina é compreender o próprio funcionamento da ideologia e da hegemonia na contemporaneidade. A ACD, ao revelar as estratégias discursivas que sustentam o colonialismo e o racismo epistêmico, reafirma sua relevância como instrumento de desnaturalização e de denúncia. Ao mesmo tempo, convoca à responsabilidade ética de ouvir os sujeitos historicamente silenciados e de reconhecer a dimensão política da palavra.
Conclui-se, portanto, que o poder da linguagem não reside apenas na capacidade de representar o real, mas de moldá-lo. A disputa pela narrativa da Palestina é, antes de tudo, uma disputa pela legitimidade da memória e da humanidade. Dar centralidade às vozes palestinas – em suas múltiplas expressões de resistência – é romper o pacto de silêncio imposto pelas estruturas coloniais e reafirmar a linguagem como espaço de emancipação e de justiça simbólica. Em última instância, é reconhecer que a palavra, quando insurgente, ultrapassa a censura do império e reescreve o mundo a partir dos silenciados.
Como diria Mahmoud Darwich, “a terra nos é estreita, mas o espaço da palavra é infinito” (2020). É nesse infinito – tecido de dor, esperança e resistência – que a Palestina continua a existir, não apenas como território, mas como verbo: o verbo permanecer.
Referências
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Roizen, Jairo. 18.06.2025. Reel em Perfil de Instagram. https://www.instagram.com/reel/DLBq7gBsf1S/?
- Slogan atribuído ao dramaturgo judeu britânico Israel Zangwill por Edward Said, em sua obra de 1979, A Questão da Palestina. Mas, segundo a historiadora Diana Muir (2008), o slogan já circulava nos círculos cristãos escoceses na primeira metade do século XIX, com a ideia de que a profecia bíblica de um retorno judaico à terra de "Israel" deveria ser encorajada. ↵
- É preciso destacar que se colocar como povo enquanto, na verdade, trata-se de um grupo religioso, é mais uma mentira, mito e invenção sionista como argumenta Sand (2011) na obra A Invenção do Povo Judeu, para o qual uma origem comum de judeus nunca existiu; “os judeus formaram comunidades religiosas em diversas regiões do mundo, mas nunca constituíram uma nação de origem única” (p. 21) e grande parte da população judaica mundial atualmente é descendente de europeus, russos e africanos, ou seja, trata-se de um grupo religioso multiétnico. O autor argumenta também que a história do exílio foi um mito promovido pelo cristianismo primitivo para recrutar judeus à nova fé e procura mostrar que a identidade judaica foi forjada em tempos modernos, tendo em vista, como em outros países, criar passados imaginários que consubstanciam relações políticas, econômicas, sociais e culturais atuais. ↵
- Segundo Deleuze (2003), essa ideologia de retorno é "uma visão religiosa e mística, não, uma visão histórica". Ela diz respeito ao argumento da "anterioridade" histórica: o que justifica a presença de um povo nesta porção da Terra é sua presença anterior (daí a importância política da arqueologia). Ao fazê-lo, a anterioridade desempenha o papel de um "direito de presença" sobre uma terra, mas também de um "direito exclusivo de presença" e, portanto, de expulsão da população nativa presente. ↵